Já dizia vovó...
- Antonio Augusto Brito

- 8 de ago. de 2017
- 2 min de leitura


– Trouxe guarda-chuva, né? – perguntou a recepcionista da academia Pergus, na rua da Passagem, quando viu Alex rumar à saída.
Ele parou por um segundo: nem sabia que estava chovendo.
Daquele jeito, porém, só uma cápsula poderia mantê-lo enxuto.
O céu desabava com vontade.
Alex nutre o costume de frequentar o Climatempo diariamente.
Ao sair de casa, pela manhã, o tempo parecia firme – embora a previsão fosse de chuva no avançar das horas.
Confiante na previsão, ele deveria ter saído com o guarda-chuva a tiracolo.
Mas a memória do rapaz anda praticando bullying com ele.
Deixou a academia e, já nos primeiros vinte metros, Niágara era um copo d'água perto daquilo.
Enquanto isso, um homem, atochado em seu terno, corria (perdão pelo eufemismo: debatia-se em disparada pela rua com a pasta na cabeça) tentando escapar do inevitável.
Alex observou. Ele adora.
Àquela altura, uma generosa goteira vertia da ponta do seu nariz.
Molhado – mas, ainda assim, intacto se comparado a Alex –, o homem se atirou embaixo de uma marquise.
Passos à frente, Alex o alcançou.
Dividiram o teto.
– Chuva filha da puta! – vociferou o homem.
– Tá foda – respondeu Alex e, em seguida, voltou para o banho.
Não tardou, e Alex foi ultrapassado pelo maluco, que imprimia um pique alucinado.
Então, aconteceu em câmera lenta.
O bicho, coitado, deslizou na escorregadia tampa de um bueiro e, como uma sacola cheia de sopa, estatelou-se no chão.
Alex teve pena.
O homem logo se levantou, incrédulo, de braços abertos, olhando milimetricamente para a arruinada roupa.
E, enfim, aceitou seu destino: pôs-se a caminhar tranquilamente, como se o amanhã jamais fosse chegar.
Mentira.
Alex riu.
Sua avó falava que quem tem pena é galinha.
* Marcos Luca Valentim é jornalista, cronista e poeta
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