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Rumo de Braga

  • Foto do escritor: Antonio Augusto Brito
    Antonio Augusto Brito
  • 2 de fev. de 2018
  • 2 min de leitura

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Divulgação

Consta que Rubem Braga tinha um bosque em sua casa. Uma forma de resistência ao poder destrutivo da máquina e dos homens em relação à natureza etc. O fato é que a casa em que Rubem morava – e mantinha o tal bosque, com mangueira, goiabeira, jabuticabeira, araçá, pitangueira, passarinhos e tanques de peixes e coisa e tal – nada mais era que uma suntuosa cobertura no edifício da rua Barão da Torre, encravado bem no bairro de Ipanema.

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Um dos maiores cronistas desta cidade viera de fora, digo, da vizinha e bucólica Juiz de Fora, para reproduzir em flora e prosa seu cotidiano de menino do interior num inusitado jardim suspenso – entre a favela do Cantagalo e a praça General Osório.

Diz que ali vivia como se estivera de fato no campo.

Mesmo sendo conhecido entre os amigos como o lavrador de Ipanema e a despeito do clássico de crônicas Ai de Ti, Copacabana, foi no bairro de Botafogo que se deu, em crônica, um dos momentos líricos mais impactantes desse fazendeiro do ar.

E era na era do bonde:

Eu ia no reboque, e o reboque tem vantagens e desvantagens. Vantagem é poder saltar ou subir de qualquer lado, e também a melhor ventilação. Desvantagem é o encosto reduzido. Além disso, os vossos joelhos podem tocar o corpo da pessoa que vai no banco da frente; e isso tanto pode ser doce vantagem,como triste desvantagem.

Qual surfista de bonde, saltando e subindo ao sabor do vento, o narrador de Braga pressente a chegada da nova estação, a partir de um sinal dado pela própria natureza, que tanto prezava: a folha seca.

O rumo de Braga, portanto, se constrói – uma vez mais – ao sabor da flora e da prosa:

Eu havia tomado o bonde (...) e quando entramos na Rua Marquês de Abrantes, rumo de Botafogo, o outono invadiu o reboque. Invadiu e bateu no lado esquerdo de minha cara sob a forma de uma folha seca. Atrás dessa folha veio um vento, e era o vento do Outono.

A praia era a de Botafogo. E o outono, o de 1935.

*Lucio Valentim é professor de Literaturas, doutor em Letras Vernáculas e pesquisador visitante no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ

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