O Teatro Jovem e o Rosa de Ouro
- Antonio Augusto Brito
- 10 de out. de 2018
- 5 min de leitura

Um teatro agitou a cena cultural de Botafogo na primeira metade da década de 1960. Com sede em um casarão no número 522 da Praia de Botafogo, o Teatro Jovem nasceu, em 1960, do entusiasmo de estudantes e artistas pela arte engajada, popular e de forte cunho social, bastante em voga naquela época. Apesar das inúmeras dificuldades, o teatro produziu espetáculos memoráveis – com destaque para o musical “Rosa de Ouro” – e revelou grandes nomes da dramaturgia e da música, como Paulinho da Viola, a cantora Clementina de Jesus e os atores Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves e Isabel Ribeiro. A experiência do Teatro Jovem foi tão inovadora que inspirou a criação dos Centros Populares de Cultura (CPCs) da União Nacional dos Estudantes (UNE).
A mistura sempre fez bem à cultura do Rio de Janeiro desde os tempos em que o imperador D. Pedro II patrocinava animados saraus no Palácio da Quinta da Boa Vista – aquele que pegou fogo no mês passado –, reunindo músicos de choro e eruditos. Com o Teatro Jovem não foi diferente. De uma mistura reunindo universitários e jovens artistas foi que surgiu o espaço. Sob a direção do estudante de arquitetura Kleber Santos, ali foram encenados espetáculos com foco na cultura popular. A estreia se deu com a peça “A mais-valia vai acabar, Seu Edgar”, de Oduvaldo Vianna Filho – o Vianinha. Mas o primeiro sucesso de público veio em 1963, com “Todo mundo ri”, comédia de Flávio Migliaccio, que, aos 29 anos, começava a fazer participações também no Grande Teatro Tupi, da TV Tupi.
Rosa de Ouro

No dia 18 de março de 1965, estreou o show “Rosa de Ouro”, aquela que seria a produção mais marcante e bem-sucedida da história do Teatro Jovem. Idealizado por Hermínio Bello de Carvalho, poeta e compositor, e produzido por Kleber Santos (foto), o “Rosa de Ouro” ousava trazer para o palco do teatro o samba de raiz numa época em que rádios e TVs davam preferência a ritmos americanos, italianos, franceses, latino-americanos, samba-canção e bossa nova. Para isso, o show reuniu artistas até então desconhecidos – Elton Medeiros, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Nescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho e Clementina de Jesus – e a estrela do teatro de revista Aracy Cortes. Clementina era filha de escravizados e havia trabalhado como doméstica durante 20 anos até ser descoberta por Hermínio. Cantora fenomenal, Aracy foi escalada quando já estava aposentada, morando no Retiro dos Artistas.
O espetáculo abria com a voz inconfundível do compositor e radialista Henrique Foréis Domingues, o Almirante: "Meu nome de guerra é Almirante. Eu fui participante do Bando de Tangarás, com Noel Rosa, Henrique Brito, Alvinho e João de Barro. Neste espetáculo carioca, vamos relembrar o cordão Rosa de Ouro. Aqui serão citados compositores de todos os tempos. Rosa de Ouro com vocês". O grupo interpretava obras de grandes compositores como Paulo da Portela, Nelson Cavaquinho, Lamartine Babo, Sinhô, Ismael Silva e Cartola. A cada pausa, entravam depoimentos gravados de personalidades da música – dos bambas Carlos Cachaça, Donga, Ismael Silva e Pixinguinha aos jornalistas Sérgio Porto, Sérgio Cabral, Lúcio Rangel e Jota Efegê.
O show, que deveria ficar em cartaz por um mês, fez tanto sucesso de público e de crítica que ocupou o palco do Teatro Jovem por um ano até sair em turnê pelo país. O “Rosa de Ouro” marcou a volta do samba ao merecido lugar de destaque na música brasileira.
Os espetáculos seguintes não repetiram o sucesso do “Rosa de Ouro” e tiveram desempenho irregular. Mas, ainda assim, revelaram talentos como Isabel Ribeiro – lançada em “A moratória”, de Jorge Andrade, de 1964, em cartaz por seis meses, com mais de 200 apresentações – e o excepcional Milton Gonçalves, que conseguiu agradar a crítica apesar do fraco texto de “América injusta”, de M. B. Duberman, com direção de Nelson Xavier e Sérgio Sanz.
Em 1966, após uma tentativa de seguir com um coletivo de diretores – formado por Nelson Xavier, Sérgio Sanz, Cecil Thiré e Kleber Santos –, o Teatro Jovem encerrou suas atividades. Por seu engajamento político e seu viés popular, ele havia servido de inspiração para a criação, em 1962, dos Centros Populares de Cultura (CPCs) da União Nacional dos Estudantes (UNE). A iniciativa durou apenas até o golpe de 1964, que fechou os CPCs em todo o país e colocou a UNE na ilegalidade.
O Teatro Jovem cumpriu bem o papel de dar vazão à insatisfação e à vontade de transformar, próprias dos jovens, e promoveu o encontro entre as culturas acadêmica e popular, mistura essa que, como sabemos, dá certo desde os tempos de Pedro II.

Elton Medeiros, Turíbio Santos, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Nescarzinho do Salgueiro, Clementina de Jesus, Aracy de Almeida e Aracy Cortes. A formação do Rosa de Ouro, exceto por Turíbio dos Santos e Aracy de Almeida, que estavam de passagem.

Rosa de Ouro no Teatro Jovem.

Clementina com Hermínio Bello de Carvalho

Paulinho da Viola e Aracy Cortes

* Antonio Augusto Brito é jornalista e adora história do Brasil
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